Moema David Oliveira

Apresentação

Estudos em História e Teoria do Design é uma obra coletiva que reúne textos inéditos de pesquisadores brasileiros dedicados a temas relevantes para a história do design no contexto nacional e internacional. Cada capítulo repercute e expande questões estabelecidas em teses e dissertações desenvolvidas na Linha de Pesquisa de História, Teoria e Crítica do Design do Programa de Pós-Graduação em Design da Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Rio de Janeiro.

Analisando problemas de pesquisa distintos e com trajetórias de vida e profissional no design diferentes entre si, encontramo-nos pelo interesse comum em teorizar o campo do design a partir de revisão histórica, em sua dimensão política. O grupo foi se formando ao longo de disciplinas de história e teoria do design ministradas pelo Prof. Dr. João Souza Leite e também por ocasião de sessões de orientação de pesquisa conduzidas sob sua batuta, entre os anos de 2016 e 2022. Nas aulas ministradas por Souza Leite, tivemos oportunidade de aprender não apenas a respeito dos temas propostos, muitos deles inéditos para nós, mas também sobre didática, pelo modo como os temas eram assertivamente abordados e cuidadosamente relacionados, com o rigor necessário à pesquisa histórica, bem como pela dinâmica na sala de pós-graduação quando nos era dada a responsabilidade de mover o debate das aulas conduzidas pelo professor. A vivência com Souza Leite e a escuta sobre sua trajetória profissional evidenciou, e evidencia ainda hoje, mesmo já fora do ambiente acadêmico, seu comprometimento ético com a educação no Brasil e sua dedicação à formação crítica de novos pesquisadores e professores de história e teoria do design no país.

Na oportunidade de editar os trabalhos aqui reunidos, foi possível observar melhor as singularidades dos temas de estudo dos autores em compatibilidade com os interesses de pesquisa de João de Souza Leite, e perceber mais claramente as linhas que estabelecem relações entre as questões elaboradas por nós ao longo desses anos.

Alguns textos buscam compreender a influência de trajetórias pessoais no curso da história do design no país, como pode ser observado no capítulo “Das artes plásticas ao design: Aloisio Magalhães e sua decisão pela atividade projetiva”. Nele, a pesquisadora Ana Dias de Alencar compartilha parte de sua investigação a respeito da trajetória de Aloisio Magalhães, revelando-nos as circunstâncias que levaram essa figura, central na história do design brasileiro, a migrar das artes para o design entre as décadas de 1950-1960. Por consequência, a autora dá pistas aos interessados em entender a postura política que Aloisio Magalhães veio a assumir, mais tarde, diante de pautas culturais quando esteve à frente do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) e como presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). De minha parte, no capítulo “O hiato da história das artes aplicadas no Brasil”, busco responder a problemas de historiografia ao apresentar parte de uma análise histórica do design a respeito do tratamento dado às artes aplicadas, às artes e ofícios, nos séculos XIX e XX, em instituições de ensino e de patrimônio, especificamente no Iphan. Em última análise, o texto é uma tentativa de marcar um posicionamento político mais crítico para o design no âmbito da pesquisa e do patrimônio, apontando a consciência histórica como elemento fundamental para o reconhecimento de histórias potenciais para o design que diferem do cânone moderno.

Outros trabalhos, por sua vez, dedicaram-se a compreender a atuação dos museus na amplificação do pensamento moderno, a exemplo da pesquisadora Maria Boghossian que, no capítulo “O MAM Rio na história do design brasileiro”, investiga arquivos do projeto do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-Rio) como materialização e meio de difusão do discurso moderno, elaborado em instituições de cultura e destinado a um público amplo no Brasil. A autora descreve como a instituição teve papel central na disseminação das pautas e da linguagem da arte concreta no Brasil no ambiente museal, em sua vocação educativa, e no ambiente escolar, em uma pretensa escola de design no MAM-Rio. No capítulo “Trajetórias do espaço expositivo moderno: confluências norte-americanas e da Bauhaus no design de exposições”, a pesquisadora Renata Perim questiona a ideia de neutralidade na filosofia do projeto moderno de design de exposições. Em seu texto, a autora trata da intencionalidade projetiva ao observar o uso da cor branca e das formas puras como elementos discursivos para persuasão de um público amplo. Renata Perim contextualiza historicamente o ambiente acadêmico no qual essas ideias foram elaboradas e avança para analisar sua aplicação na reconfiguração de espaços como galerias, museus e lojas de departamento, com a finalidade de orientar a experiência educativa das pessoas nestes ambientes, em favor de uma reforma do gosto público.

A fim de fazer uma contribuição social do design para a educação no ambiente escolar, no capítulo “Design e autonomia: da virtualidade do campo ao projeto de uma educação para o fazer”, a pesquisadora Cristina Cavallo encara as implicações decorrentes da separação histórica entre o fazer e o pensar na educação brasileira, que, entre outras coisas, corroboram para a incompreensão do campo do design no país. Em seu texto, a autora apresenta a tese do ensino por meio do projeto, propondo efetivamente uma disciplina de design para o currículo escolar, a ser trabalhada no âmbito das políticas públicas de educação. O propósito da disciplina consiste em potencializar competências e habilidades dos indivíduos de projetar e construir coisas, bem como lidar com processos sociais complexos e promover uma cultura de projeto para autonomia no Brasil.

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