Provérbios e máximas no ensino de português variante brasileira: da estratégia oral ao uso digital

Maria José Nélo
Aparecida Regina Borges Sellan

A cada contemporaneidade histórico-social, o ensino de língua para estudantes brasileiros e estrangeiros segue tendências e projeções de objetivos, conteúdos, metodologias, saberes, fazeres culturais adequados de modo a promover a integração prática de ensino-aprendizagem desses estudantes. Não menos importante encontram-se os gêneros textuais recorrentes no uso espontâneo oral e como instrumentação-meio em aulas presenciais ou não de língua portuguesa. Dessa forma, o objeto de estudo e análise, ora em destaque, são os ditos populares - provérbios e máximas -, que refletem marcas de identidade cultural dos brasileiros.

A concepção de identidade cultural atravessa ou está presente no ensino de uma língua intrinsicamente vinculada às recorrencias de uso oral e de escrita dessa língua. Assim, os ditos populares, como gêneros textuais característicos da oralidade, tornam-se indispensáveis como conteúdo a ser tratado, porque o estudante estrangeiro, nosso principal interlocutor, tem breves domínio de tal gênero. Entretanto, estando em imersão e em contato com falantes nativos, que fazem uso desses ditos com domínio dos sentidos neles contidos, a falta de conhecimento dos significados construídos na língua em uso leva a dificuldades de interação, dentro e fora da sala de aula. Por essa razão, o professor de português brasileiro como língua estrangeira deve conhecer e dominar, além desses saberes expressos nos ditos populares, também fazeres transformadores relativos a utilizar esses textos de acordo com o público estudantil.

Este capítulo trata de ditos populares que possibilitam o dialogo dos conhecimentos culturais contidos e expressos na sua superfície textual, formas de atribuição, no uso cotidiano, das formas de representação de si, da cultura e da ideologia do brasileiro. Tem-se por objetivo tratar de aspectos avalitivos, culturais e ideológicos na interlocução com alunos estrangeiros com base em atividades que promovam condições interativas das funções sociais e organizacionais por meio de ditos populares no ensino-aprendizagem de língua portuguesa variante brasileira.

As discussões teóricas remetem às concepções sobre gênero textual discursivo, identidade cultural e ideologia em intersecção com Análise Crítica do Discurso pela tríade sociedade, cognição e discurso. Para tanto, o recorte teórico-prático que propiciou a realização das atividades foram baseadas nas seguintes questões: 1- metodologicamente, após contatos com os estudantes, observou-se que todos se encontravam em fase de produção de seus relatórios de graduação e pós-graduação; esses revelaram ter mais dificuldades de interagir oralmente com os brasileiros que não eram universitários, uma vez que aqueles estudantes faziam pesquisas na área rural e em colônia de pescadores. Essas informações foram fundamentais para a seleção de dez (10) ditos populares de uso frequente pelos brasileiros, alguns adaptados em publicidade que reforçava o uso dos ditos; desses dez ditos, foram selecionados apenas quatro para exemplicação. A partir desses ditos, os estudantes foram orientados a selecionar um que eles julgassem representar o que se identificava com sua cultura. Eles poderiam representar suas realidades em texto linguístico e/ou visual, como pode se verificar nos resultados, bem como outras adaptações em mídia digital.

Nessa perspectiva, os gêneros do discurso são compreendidos como aqueles que se caracterizam por apresentarem características relativamentes estáveis, de acordo com Bakhtin (2003). O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados orais e escritos proferidos pelos integrantes em seus campos de atividades, pois refletem as condições do meio de comunicação e servem a situações típicas da comunicação social, cujas dinâmicas de uso se renovam constantemente, estabelecendo uma relação entre o passado e o presente. O autor argumenta também que a textualidade se define a partir dos gêneros, pois são agenciadores de visões de mundo. 

Keep reading
Sign in or create your free account to read the rest of this chapter and the whole book. You will pick up right here.