O olhar do presente examina o passado: o texto literário como lugar de engajamento para desvendar o mundo

Edmar Ferreira de Matos

Considerações iniciais

O presente capítulo parte do princípio de que o texto literário propicia engajamentos ao leitor de modo que este possa, com o olhar do presente, examinar o passado. Tal exercício de leitura, o qual a obra literária torna-se um lugar fecundo de reflexões, evidencia o trato dado à linguagem e o seu poder de suscitar visões sócio-históricas ao (re)criar espaços e situações por meio de sua literariedade, realçada pela função estética. Nesse sentido, a leitura de 15 Cenas de descobrimento de Brasis, de Fernando Bonassi, oportuniza o olhar às múltiplas faces da fundação da sociedade brasileira em diferentes contextos.

De fato, o texto literário fomenta reflexões que proporcionam, pela sua prática leitora, a capacidade de humanizar o homem, de libertar-nos, enquanto atividade criadora e imaginativa, e fazer-nos perceber o que vemos, imaginar o que já conhecemos conceitual ou aparentemente (Wellek & Warren, 2003, p. 29), dentre outras funções. Nessa direção, concordamos com Candido ao apresentar a Literatura como um direito de todo cidadão, e ao afirmar que

a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade (Candido, 2013, p. 188).

Com base, portanto, na concepção de que o texto literário nos torna mais humanizado e nos faz refletir o que vemos, ele se inscreve em uma condição sócio-histórica como parte inerente ao construto da própria literariedade, intrínseca a sua linguagem.

Dentre as múltiplas maneiras de se ler o texto literário, vale destacar a atenção quanto à organização de sua linguagem, não apenas lê-lo como uma expressão da psique de seu autor ou como um reflexo da sociedade que o produziu (Culler, 1999). Assim, cada uma de nossas percepções, enquanto leitores, é acompanhada também de uma consciência desvendante. Em termos gerais, Sartre evidencia em seus estudos que

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