Prefácio

Neste livro, organizado em oito capítulos, os autores problematizam a Literatura e o fazer literário, destacando a influência das experiências de vida e da escrita no cotidiano. Em comum, convidam o leitor à reflexão e ao posicionamento diante dos silenciamentos que atravessam o dia a dia, marcados por preconceitos de gênero, raça e classe social. Com um olhar atento, revelam nuances muitas vezes invisibilizadas pelas violências simbólicas presentes na sociedade.

No capítulo “Leitura do texto literário de Geni Guimarães: uma experiência de vida e uma oportunidade de resistência da consciência negra”, Jarbas Vargas Nascimento destaca a resiliência da mulher negra e questiona os cânones literários baseados no eurocentrismo e na supremacia de autores homens brancos. Ao analisar a obra de uma escritora negra que parte de sua própria trajetória, o autor evidencia vivências de uma professora frequentemente marginalizada, conduzindo o leitor a uma reflexão sobre a importância da empatia e do afeto na compreensão da experiência humana.

No capítulo intitulado “A literatura periférica, dando voz à invisibilidade social”, Alba Gabriela Moreira analisa como os ecos de ideias eurocentradas, herdadas do período colonial, continuam a silenciar os chamados “subalternos”. Em contraponto, evidencia-se a potência da literatura periférica como ferramenta de resistência e afirmação. A chamada Literatura Marginal, surgida na década de 1970 em um cenário cultural precarizado, mobiliza vozes historicamente marginalizadas, promovendo uma expressão artística comprometida com a valorização da cultura periférica e com a incorporação da vida cotidiana à escrita, por meio da crítica social.

No capítulo “O espaço regional e o universo feminino no texto literário Boca do povo, de Jarid Arraes”, as mulheres mantêm seu protagonismo. Estela Garcia da Silveira Rossato destaca, além da força da regionalidade caririense, a centralidade da figura feminina, que rompe barreiras sociais por meio da literatura de cordel. A autora resgata personagens históricas femininas frequentemente marginalizadas, especialmente aquelas fora do eixo Sul-Sudeste, conferindo visibilidade a trajetórias silenciadas pela historiografia dominante, mas que, ao emergirem na narrativa, transcendem o particular para o universal, questionando os preconceitos da sociedade brasileira e as relações de gênero na contemporaneidade.

O capítulo “A leitura do texto literário como espaço de desvendamento”, de Ricardo Domingos Pinto e Silva, aborda temas como injustiça, ocultação da verdade, desigualdades raciais e de gênero, além da estrutura patriarcal da sociedade. A partir de sua própria trajetória, o autor lança um olhar crítico sobre a realidade social e política de seu país, refletindo sobre os efeitos da ditadura, especialmente no silenciamento imposto às mulheres e a outras minorias.

No capítulo “Identidade, memória e denúncia na obra literária de Liliana Laganá”, Célia Regina Rodrigues Gusmão questiona o papel social da Literatura e o contexto de produção da obra literária. A reflexão sobre o universo feminino prossegue em “O protagonismo feminino no conto ‘Felicidade Clandestina’, de Clarice Lispector”, assinado por Cíntia Barbone Oliveira. Ambas as escritoras, Liliana Laganá e Clarice Lispector, chegaram ao Brasil ainda crianças, acompanhadas de famílias que fugiam de perseguições políticas e da crise econômica europeia no período entre guerras. A partir das obras dessas autoras imigrantes, os capítulos exploram como memórias pessoais se entrelaçam a eventos históricos que impactaram o cenário mundial. Liliana Laganá resgata lembranças de infância após visitar seu país de origem, revisitando experiências marcadas por violência, abandono e o medo do desconhecido diante do rompimento com suas raízes. Ao eternizar essas memórias na escrita, transforma-as em narrativa de denúncia, superação e construção de identidade. Clarice Lispector, por sua vez, teve apoio familiar para estudar e desenvolver sua paixão pela leitura. Formou-se em Direito, atuou como jornalista e firmou-se como uma escritora à frente de seu tempo, cuja obra reafirma o protagonismo feminino por meio de uma escrita singular e introspectiva.

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