MAS E O FUTURO?

Até agora neste trabalho tivemos nosso olhar voltado principalmente para o passado, afinal, este se apresenta latente em nossa realidade, com suas cicatrizes cada vez mais escancaradas dado o esforço intelectual e a militância dos movimentos indígenas, negros e feministas. As estátuas dos colonizadores caem no Chile, suas cabeças penduram-se nos braços de estátuas de heróis mapuche. No Brasil, os povos indígenas gritam sua resistência e denunciam: “nenhuma gota a mais”; o povo preto exige a reparação histórica pelos crimes cometidos pelo estado brasileiro e o fim do genocídio de sua juventude pelas forças de “segurança” estatais e privadas; mulheres lutam pela igualdade de direitos e autonomia sobre seus próprios corpos e destinos. Essas lutas ecoam a continuidade de nosso passado colonial, com mais 500 anos de resistência, e sua vitória é parte inalienável da decolonização de que precisamos. Dito isso, pergunto: Que futuro queremos? E como o design se insere nesse projeto de futuro? Mas, antes de começar a responder, uma provocação:

O design, como se diz com frequência, tem a ver com os “futuros preferidos”. Entretanto, não seria esta noção de futuro, e do futural, inevitavelmente moderna? (...) Mais ainda, não estaria a noção de futuro com frequência condicionada contra o Sul Global, por exemplo nas representações dos efeitos da mudança climática, nas quais se pode detectar uma verdadeira “distribuição desigual de futuros apocalípticos”? Porque apelar então, a esta noção? (ESCOBAR, 2016: p. 243)

O questionamento trazido por Arturo Escobar nas páginas finais de Autonomía y Diseño evidencia como o design está condicionado a reproduzir categorias “inevitavelmente modernas”. Afinal, como vimos, o design nasce no seio da modernidade, fruto da ideologia do progresso, do “avanço” e desenvolvimento da ordem sociotécnica, da “superação” da natureza e da racionalidade impositiva da cultura europeia. Dessa forma, as prospecções sobre o futuro e o impulso por solucionar problemas através de novas tecnologias são praticamente um imperativo desta profissão.

Conforme estabelecemos de início, a construção de um design decolonial passa por reconhecer essas origens, condicionantes e tendências, para que se possa escapar dos padrões de pensamento estabelecidos pela modernidade/colonialidade. O pensar “sobre o futuro” do design hegemônico está contaminado com as categorias e utopias carregadas pela euromodernidade racista, patriarcal e capitalista. Assim, para a uma opção decolonial para o presente/futuro as perspectivas de tempo não-lineares das culturas não-europeias são um bom partido para se pensar os futuros possíveis, observando-se as potencialidades do presente e as experiências do passado.

Partindo da constatação de que existe uma evidente hegemonia de corpos políticos brancos e masculinos e sua produção teórica nas referências do ensino do design na FAU-USP, na primeira parte do presente trabalho buscamos entender as características inerentes à visão de mundo eurocentrada que se perpetua através dessa composição étnica e ontológica na construção do conhecimento, bem como os processos históricos que a consolidaram. Vimos que os processos de genocídio e epistemicídio que estabeleceram o conjunto de estruturas sociais e políticas – de raça, gênero, classe – do que convencionou-se chamar de modernidade têm sua raiz no dualismo ontológico que ordena as relações do branco/europeu/ocidental frente a sua alteridade – a natureza, a mulher, o africano, o ameríndio, o asiático, o oriental. Vimos também que essas relações se solidificaram e dispersaram durante a expansão colonial europeia, o que, por sua vez, propiciou o salto tecnológico que ensejou a ideologia do progresso, ao mesmo tempo em que estabeleceu as bases desiguais para o estabelecimento do sistema capitalista.

Após delinear os alicerces do sistema-mundo moderno/colonial/capitalista, partimos para uma descrição da ideologia do progresso enquanto parte integrante e estruturante da visão de mundo autocentrada do europeu, e, por extensão, das elites e ex-elites coloniais, dos colonos e imigrantes, que, ainda que com menos poder e influência, contribuem para sustentar o sistema de privilégios que viabilizam a desigualdade e o genocídio de pretos e indígenas. Compreender a ideologia do progresso nos deu pistas para observar o fenômeno do desenvolvimento enquanto manifestação dessa mesma ideologia no século XX, esboçando seus paralelos com os projetos de modernização e consolidação dos estados nacionais pós-coloniais, trazendo o caráter padronizador, embranquecedor e europeizante desses projetos, tanto sob a perspectiva dos povos quanto dos territórios ocupados pela euromodernidade. Ao mesmo tempo, identificamos a construção da indústria e consequentemente do design enquanto fruto e ferramenta para a fruição de tais projetos de modernização e desenvolvimento nas sociedades dos países do Sul Global.

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