Eliézer do Nascimento Junior

As folhas velhas da Vista Alegre: história impressa ao acaso

Figura 1Coleção EXCESS. Prato de porcelana com decoração policromada inglaze. Fonte: elaboração própria

Este texto decorre de uma investigação desenvolvida durante uma residência imersiva na Fábrica de Porcelana Vista Alegre, em Portugal, como parte de uma pesquisa de doutorado em Design (ESDI/UERJ). A investigação histórica do design, a partir da história da fábrica registrada em sua produção gráfica para estamparia, resultou na proposta de reutilização criativa das chamadas folhas velhas, papéis de refugo, nomeadamente maculaturas, usadas na limpeza das telas de serigrafia, como base para decorar peças de porcelana. Essas folhas, análogas aos palimpsestos, marcadas por sobreposições aleatórias de padrões decorativos, reutilizadas como decalques cerâmicos, resultaram em peças únicas que rompem com os padrões convencionais da produção seriada utilizados pela fábrica.

Para analisar essa ruptura, dialogo com o passado, revejo os processos de design estabelecidos e proponho o contato com o imprevisto, o casual, o acidental, a coincidência e o erro gerados pela produção industrial em série. Os acontecimentos históricos determinam mudanças dos paradigmas de produção dos artefatos. Uma dessas mudanças diz respeito à transição de uma produção artesanal em baixa escala à produção mecanizada e ao papel do designer como construtor de pontes entre os processos manuais e os mecânicos.

Nessa intenção de revisar o passado para entender como se constituíram as estruturas fabris e as bases do processo de produção industrial atual, as quais deram possibilidade à experimentação prática desta pesquisa, que fez uso do parque industrial de uma bicentenária indústria portuguesa, apresento um apanhado de questões sobre as intersecções entre o método de produção artesanal e a linha de montagem industrial e uma breve retrospectiva dos acontecimentos referentes à fundação da Vista Alegre e à evolução de sua gramática visual.

Este texto fundamenta-se em autores como Bourriaud, Plaza, Genette, Maxine Berg e Sennett para discutir o design como prática crítica e reaproveitadora de processos. Bourriaud (2009) contribui com a noção de pós-produção, valorizando a remontagem de materiais preexistentes como gesto criativo. Julio Plaza (1987) destaca a bricolagem e a tradução intersemiótica como formas de reconfigurar sentidos visuais e materiais. Gérard Genette (2006) oferece o conceito de palimpsesto para pensar a respeito das sobreposições gráficas como camadas de significação. Maxine Berg (1994) ajuda a contextualizar historicamente a transição das oficinas artesanais para a produção industrial, permitindo refletir sobre o papel do refugo nesse percurso. Já Richard Sennett (2008) resgata a importância da “perícia artesanal” como saber construído na repetição e no cuidado. Juntas, essas perspectivas corroboram para sustentar o discurso de valorização das folhas velhas como vestígios materiais e narrativos da história visual da Vista Alegre.

A prática resultante dessa experiência, a Coleção EXCESS, valoriza o refugo como arquivo e matéria-prima ao demonstrar o acaso a ser integrado ao processo produtivo, criando uma narrativa para os resíduos e revelando a história da fábrica por meio de suas camadas gráficas acidentais. A palavra em inglês excess foi escolhida por guardar em seu significado uma ambiguidade que remete tanto para a ideia de excesso, algo que sobra, quanto para a ideia de excelência, excepcionalidade e exclusividade.

1. À mão e à máquina

Utilizados no planejamento de bens industriais que contribuíram para a geração de riqueza e para o inconsciente cultural coletivo, os estudos sobre a evolução histórica dos estilos artísticos culturais, são também peças fundamentais nos estudos da cultura material contemporânea, já que eles se iniciam no estágio nascente da história do capitalismo, a partir de iniciativas produtivas pioneiras, no início da primeira Revolução Industrial. Maxine Berg, no livro The Age of manufactures, 1700-1820: Industry, innovation and work in Britain (1994), discute teorias que analisam as relações entre a manufatura e a indústria moderna inglesas. As mudanças da produção agrária do século XVIII, o início do capitalismo comercial e a crescente produção manual das áreas rurais e das oficinas urbanas são entendidas por ela como as raízes da mecanização e da organização fabril.

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