Mariana Boghossian
O MAM Rio na
história do design
brasileiro
Em uma época em que a sociedade brasileira vinha sofrendo graves transformações econômicas, sociais, tecnológicas, urbanísticas e culturais, foi fundado o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), em 3 de maio de 1948. Na ata de constituição, está registrado seu anseio por implementar meios de ensino e pesquisa e sua vocação para a promoção e divulgação de tudo que lhe era contemporâneo e de vanguarda — incluindo o design. Todas as atividades propostas, entre cursos, oficinas, apresentações musicais e de dança, palestras, conferências, exibição de filmes e exposições, tinham o intuito de educar o gosto do homem para sua adesão ao espírito moderno.
Políticas econômicas adotadas pelo Estado prometiam o aumento da produção industrial e, somadas ao processo de democratização e ao crescimento populacional das cidades, direcionavam o país para certo ideal de progresso, para um futuro promissor, guiado pelos ideais do movimento moderno. O projeto moderno criou novos valores que regiam inclusive uma nova ordem estética. A intenção de quebra de paradigmas, própria da arte abstrata, revelada no final dos anos 1940 no Brasil, não se dispunha a ser apenas uma discussão formal, mas também a ocupar um novo lugar na dinâmica social, pela estetização da vida urbana.
Com as aspirações do próprio museu, que abarcava rupturas, e o plano político e econômico em curso, que promovia a associação do modernismo a um projeto de desenvolvimento de bases industriais, o design penetrou no ambiente social brasileiro. Neste cenário, o MAM Rio serviu como mensageiro do que havia de mais novo não apenas nas artes visuais, mas no que era atual e de vanguarda na área da cultura.
Como porta-vozes, o museu contou com os principais jornais da cidade, sobretudo o periódico Correio da Manhã, dirigido por Paulo Bittencourt, casado com Niomar Moniz Sodré, que ocupou a cadeira de diretora executiva do MAM Rio entre 1951 e 1961. Este período foi marcado pelo rompimento com iniciativas cunhadas no tradicionalismo, e pela forte injeção do pensamento moderno no museu e na sociedade. Para isso, teve como aliados colunistas como Jayme Maurício, que, mesmo sem embasamento teórico específico na área e sem suposta neutralidade, com frequência abordou e discutiu o design — uma atividade ainda em formação — com escrita descomplicada e didática para leitores comuns. Desta maneira, contribuiu para a aproximação do MAM Rio com o público geral e para a infiltração do design moderno na vida cotidiana.
Além de jornais e revistas, cartas, filmes, artefatos gráficos e outros documentos, sobretudo as fontes preservadas nos arquivos e acervos do museu, são evidências fundamentais de importantes eventos ocorridos no museu entre o ano de sua fundação e o incêndio que o atingiu, em 1978, recorte coincidente a iniciativas relevantes e inovadoras para demonstração e difusão do design moderno no país.
Munido de instrumentos de comunicação de massa e movido ainda pelo seu programa de educação do gosto e por interesses econômicos e geopolíticos, o MAM Rio promoveu ações voltadas para o ensino e a pesquisa, a promoção e a divulgação do design moderno, como veremos a seguir.