UMA REFLEXÃO, ALGUNS ANOS DEPOIS
Desde o final de 2018, quando comecei a pensar neste trabalho, o tema da decolonização do design tem ganhado certa profusão no Brasil. É certo que ele próprio faz parte desse movimento de aproximação do campo do design no Brasil ao pensamento decolonial, carregando alguns dos sonhos que a adesão a “novas” correntes de pensamento trazem. E não digo “sonho” no sentido de uma ilusão ou uma ingenuidade, mas o sonho como o lugar onde outros mundos são possíveis, onde ensaiamos aquilo que queremos materializar, as ideias que podemos realizar. Onde erramos, acertamos, nos lembramos daquilo que fomos e enfrentamos o que não queremos ser.
Certamente um dos sonhos que tinha ao escrever este trabalho era o de ver este tema nas bocas de muitas pessoas, em rodas de conversa, em eventos e nos cursos de design pelo Brasil afora. E isto, com certeza, vem sendo realizado em partes. No entanto, também é próprio dos sonhos o espaço para a ilusão, assim como para a desilusão. Digo isso, pois a forma com que o pensamento decolonial é apropriado por iniciativas autônomas no campo do design, com debates, rodas de conversas, cursos e seminários, certas vezes se mostra preocupante. E não me preocupa no sentido de que tal aproximação não deveria ser realizada; pelo contrário, o que me preocupa é a forma rasa com que se tem realizado esse movimento, derivada do impulso pela adesão rápida ao “assunto do momento”.
Uma das coisas que o pensamento decolonial nos ensina através de leituras não-europeias e dualistas é a forma como o sistema capitalista, moderno e neoliberal nos tira o tempo. O tempo necessário à contemplação, à digestão, à maturação das ideias e do pensamento. E é essa pressa em se consumir aquilo que o pensamento decolonial tem a nos oferecer que pode levar ao esvaziamento de suas propostas, de seus projetos de vida, de seu pensamento/ação. Por que uma leitura rasa da decolonialidade pode facilmente confundi-la com a luta pela diversidade dentro de espaços hegemônicos, ou pela inclusão (Tuck e Wayne, 2012). O que não significa que tais movimentos não sejam necessários, ou que nós, designers, não devêssemos estar preocupados com isso em nossa atuação dentro de empresas ou instituições. Significa, pois, que é raso acreditar que a decolonização possa ser compatível com o mesmo sistema que estamos nos esforçando para diversificar, e que possa incluir as parcelas que foram excluídas desse sistema – pois é dessa exclusão que ele se alimenta. Como bem pontuou Silvio Almeida em sua entrevista ao programa Roda Viva, uma tragédia não se torna menos tragédia se for uma tragédia colorida.
Pergunta-se “o decolonial vende?”. E a resposta é sim, certamente. Recentemente, inclusive, o “decolonial” (e aqui não poderíamos evitar o uso das aspas) foi classificado por uma grande consultoria de marketing como uma tendência de mercado para a década de 2020. E é aqui que se percebe o buraco em que nos enfiamos. O pensamento decolonial se encaixa quase perfeitamente no rebranding que o design moderno, a globalização e o desenvolvimento demandam. Algo que esconda a crise e a catástrofe climática e social causados pelo discurso do desenvolvimento, a globalização e o neoliberalismo. As lutas antirracistas, feministas e decoloniais precisam ser domesticadas para que novamente a euromodernidade capitalista patriarcal as consuma, e em seguida regurgite essa versão light, soft, pocket de uma diversidade rasa, com aparência de decolonial. Para que as grandes corporações, herdeiras da destruição colonial possam dizer “estamos nos decolonizando!” Então, sim: ele vende, mas não “o decolonial” em todas as suas dimensões, em todas as suas práticas e reflexões. Esses não estão à venda. O que está à venda é o decolonial enquanto metáfora, vazio de sentido prático, de luta e de vida.
A metaforização da decolonização, como bem apontaram Tuck e Yang tem um papel crucial para esse processo, pois, decolonização como metáfora para diversidade proporciona a dose de “anticolonialidade” de que os neos (colonialismo, liberalismo, extrativismo e desenvolvimentismo) precisam para sorrateiramente engolir os corpos, estéticas e vivências que o genocídio e o epistemicídio não conseguiram eliminar, devido à resistência dos colonizados e oprimidos. E é por isso que ela vende, pois é mais um recurso do qual a modernidade capitalista se apropria, esvazia de sentido, transforma em rótulo e vende.
E aqui cabe trazer a dimensão em que nós – eu e você – estamos imersos nessa modernidade: não estamos separados dela, se não estivermos atentos e vigilantes, se não tivermos respeito ao tempo, ao diálogo e àquilo que outros fizeram, disseram e pensaram antes de nós, podemos cair nessa armadilha do esvaziamento. Quando nos apressamos, cedendo à pressão da produtividade acadêmica como uma nova tendência que queremos trazer para nossa atuação profissional, corremos o risco de esvaziar o discurso e de contribuir para a sua domesticação.