CONSIDERAÇÕES FINAIS
Partindo dos pontos elaborados no decorrer deste trabalho, gostaria agora de fazer alguns apontamentos e esboçar algumas propostas de campos de ação pertinentes para uma reconfiguração da teoria, da prática e do ensino de design no Brasil:
As condições desiguais do capitalismo dependente estabelecidas pelo sistema de dominação colonial fazem com que a busca pelo desenvolvimento e a industrialização aos moldes consolidados no Norte Global devam ser reconsiderados enquanto horizonte para a prática do design no Sul Global. Frente a isso, uma agenda de fomento e pesquisa para um design rumo a alternativas ao desenvolvimento se apresenta enquanto uma possibilidade mais coerente sob um ponto de vista social e ambiental no contexto brasileiro. (ACOSTA, 2011; ESCOBAR, 2016; LANG, 2016);
Numa perspectiva micro, de ações locais autônomas com potencial de criação de redes e um campo rico para o design, podemos pensar na atuação de designers em iniciativas locais e territorializadas consonantes com alternativas ao desenvolvimento em empreendimentos de economia solidária, projetos de agricultura urbana com técnicas agroecológicas, desenvolvimento de softwares e hardwares open source, redes de consumo consciente, entre outras formas de produção e organização popular, como cursinhos populares, quilombos urbanos, centros culturais, associações de bairro e comunitárias (ESCOBAR, 2016);
Numa perspectiva macro, as propostas de redução da atividade extrativista rumo a um sistema produtivo pós-extrativista são um terreno extremamente fértil para o desenvolvimento de pesquisas e projetos de design de sistemas e design industrial. As propostas elaboradas por Eduardo Gudynas sobre transições ao pós-extrativismo falam do estabelecimento de etapas que passam do “extrativismo depredador” que configurou a atividade industrial até o momento, para um “extrativismo sensato” e posteriormente um “extrativismo indispensável” (GUDYNAS, 2009). Essa transição ao pós-extrativismo faz parte integrante da fuga do modelo civilizatório eurocêntrico apontado pelos povos originários, ressoando também em um apoio indireto à luta pela demarcação e devolução das terras roubadas no período colonial aos seus legítimos habitantes, bem como da formulação de mecanismos para a manutenção de sua soberania alimentar, cultural e territorial;
Do ponto de vista da decolonização do ensino de modo geral, é primordial lutar para que as políticas de ação afirmativa não sejam esvaziadas através de processos excludentes no interior dos cursos de ensino superior. Para além disso, é necessário lutar para que tais políticas de ação afirmativa sejam aprofundadas, estendendo-se também para o corpo docente e técnico-administrativo. Do ponto de vista decolonial, tais medidas devem ser tomadas com a perspectiva de progressivamente se dissolverem os contornos que delimitam a vida universitária do restante da sociedade, contribuindo para uma democratização real do conhecimento, idealmente tornando a extensão universitária “obsoleta”;
Refletir a busca pela decolonização do ensino através de uma história do design contextualizada, com mais foco na história do design brasileiro, aprofundando mais na industrialização do Brasil do que na da Inglaterra ou da Europa durante a Revolução industrial. Nesse sentido, passar mais brevemente por Arts and Crafts, Art Nouveau, Art Déco e De Stijl, focando mais no design nacional e nos objetos do cotidiano brasileiro, das comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas. Assim, essa decolonização deve também estar presente nas elaborações acerca dos fundamentos sociais do design, evidenciando sua matriz racionalista/eurocêntrica, apontando para a binômio modernidade/colonialidade e introduzindo outras formas de produção material não-europeias, sempre que possível através da produção teórica e perspectivas dessas culturas;