TODO TERRITÓRIO COLONIAL
ANTES DE TUDO É ANCESTRAL
QUANDO RASPADAS TODA ESCÓRIA
PLÁSTICO, ASFALTO E METAL
HISTÓRIAS NÃO CONTADAS NA HISTÓRIA
O SANGUE QUE OXIGENA
QUEM SEMPRE FOI DAQUI SABE
SP SEMPRE FOI
TERRA INDÍGENA


Denilson Baniwa

POR QUÊ? POR QUEM? PARA QUEM?

No ano de 2018 durante a greve dos estudantes da USP, as estudantes Horrana Porfírio Soares e Ciro Fico Vieira da Rocha desenvolveram o projeto “Ensino no design: por quem, para quem?”, que consistia em uma representação visual dos dados coletados em um levantamento acerca do perfil de raça, gênero e territorialidade presente nas bibliografias de diversas disciplinas do curso de design da FAU-USP. Seu objetivo foi “refletir a respeito do racismo, machismo e colonização no ensino do curso de design” (SOARES, 2019). O levantamento realizado revelou que, “das 127 obras em 13 matérias obrigatórias (dentre as 40 matérias obrigatórias) (...) quanto a raça, cerca de 95,3% são brancos(as), os outros 4,7% são amarelos(as). Na categorização por gênero, 81,9% são homens e 18,1% mulheres" (ROCHA, 2018: p. 69).

A partir desses dados podemos observar quantitativamente a predominância de uma perspectiva branca e masculina na construção das bases teóricas, metodológicas e ideológicas no ensino de design da FAU-USP. Com isso em mente, temos que, para se construir um ensino coerente com a realidade brasileira (composta por pelo menos 50 % de pessoas pretas ou pardas) é necessária a inclusão de outras perspectivas na composição da teoria e consequentemente da prática lecionada nessa instituição. Isso fica claro nos números, quantitativamente, entretanto, parece ainda necessária uma demonstração do quanto isso influencia qualitativamente o ensino e, consequentemente, a prática do design.

Para Marimba Ani (ANI, 1994), “o caminho para a descolonização intelectual começa com um caminho de obstáculos precários e uma fuga do labirinto da mitoforma europeia” (ANI, 1994, p. 223). Em outras palavras, passa pela superação das categorias epistemológicas transmitidas a nós em nossa formação enquanto participantes da “modernidade”, seja em nossa inserção na academia seja no mercado. Para isso, é importante compreender de forma crítica as características da cultura europeia que marcam essa modernidade, buscando as raízes ideológicas e históricas de manifestações consideradas “neutras” na perspectiva eurocêntrica.

Com isso em mente, neste capítulo serão apresentadas algumas contribuições teóricas que dão conta da construção de um entendimento acerca das hierarquias estabelecidas a partir da expansão colonialista europeia no século XVI, bem como das formas pelas quais essa cultura particular se impôs e se consolidou enquanto a norma. Busca-se, a partir desse entendimento, fornecer as bases para o abandono das estruturas epistemológicas, culturais e sociais estabelecidas no processo de colonização, “antropologizando” o que costumeiramente se naturaliza como “neutro” (ANI, 1994; ESCOBAR, 2016). Parto do princípio de que não é possível a construção de uma crítica à prática sem um questionamento de seus fundamentos e premissas culturais e ideológicas, dessa forma, as origens do design no seio da cultura europeia fazem com que seja necessária uma visão crítica sobre a mesma.

Para isso, tomo como base autoras e autores do grupo Modernidade/Colonialidade (M/C), bem como outras contribuições da teoria pós-colonial, feministas decoloniais, pensadoras e pensadores da afrocentricidade, entre outras correntes, a fim de poder abordar a questão da cultura europeia e sua relação com o desenvolvimento histórico da modernidade e da colonialidade. Na primeira parte, começo com uma apresentação do argumento do grupo M/C sobre a indissociabilidade entre modernidade e colonialidade (DUSSEL, 1993; MIGNOLO, 2016; BALLESTRIN, 2013). Num segundo momento, trago algumas das características da cultura europeia descritas por Marimba Ani, além de outras contribuições de Arturo Escobar e Carlos Eduardo Dias Machado. Em seguida apresento aqueles que o antropólogo portorriquenho Ramón Grosfoguel (GROSFOGUEL, 2016) considera os quatro genocídios e epistemicídios fundadores da modernidade, através dos quais a cultura europeia veio a se impor sobre as demais. Somo a essa retomada histórica análises de outras historiadoras e antropólogas como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e Silvia Federici. Após essa exposição apresento os conceitos de colonialidade do poder e colonialidade do saber cunhados por Aníbal Quijano e elaborados no âmbito do grupo M/C. Por fim, abordo o tema do racionalismo e do dualismo ontológico e suas consequências segundo Arturo Escobar, dando ensejo às análises sobre design, indústria e desenvolvimento do capítulo seguinte.

A partir dessas elaborações, busco responder a dois pontos que emergem da constatação de que o ensino de design é predominantemente branco, masculino e centrado em valores culturais externos. O primeiro diz respeito aos motivos pelos quais tais características podem ser consideradas enquanto parte do desenvolvimento histórico do continente europeu (1); o segundo, como esses valores puderam se estabelecer enquanto os principais referenciais teóricos e culturais do campo do design partindo de uma perspectiva histórica mais ampla (2).

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