Comentários, Considerações e Conjecturas
Certa vez, enquanto dirigia pela cidade, me deparei com um carro à minha frente com um adesivo de para-choque com os dizeres: “não me siga, estou perdido”. Acho que todo docente de disciplinas de projeto em Design deveria andar com isso escrito na roupa ou em um crachá. Isso se aplica também a mim mesmo, claro.
Quando em orientação a estudantes em sala de aula, desde que lanço o desafio ou a demanda da vez até o momento em que me converto de consultor a avaliador, ao final do processo, tudo o que procuro fazer é questionar e plantar dúvidas. A ideia não é determinar se uma decisão de projeto vai ou não resultar no que aqueles aprendizes esperam, mas provocar reflexão e questionamento para que possam se municiar de argumentos, dados, técnicas ou experimentações que suportem o que decidiram fazer. No fim das contas, projetar em Design é mesmo lidar com a incerteza desequilibrante vivenciada por quem ensaia. Não há certezas, apenas apostas. Por isso, falando diretamente àqueles que estão em formação: apostem no que acreditam. Basta se cercar de motivos que norteiam suas escolhas para que elas valham a pena. Se não funcionar, tente de novo. Ninguém perde por tentar nesse contexto, mas muita gente perde por não insistir. Se a formação é sua, é você quem precisa construí-la. Aproveite os desafios sem medo e busque se encontrar, mas não espere certezas de nós, pobres professores. Mesmo tendo nossos próprios caminhos mais longamente traçados, também continuamos apostando.
Essa incerteza, apesar de assustadora em alguns contextos, é também o que faz o projetar em Design tão instigante. Assustadora porque, quando se pensa no investimento necessário para que um produto seja feito e circule entre as pessoas tanto intelectual quanto de tempo e de recursos a ideia de aposta causa calafrios. Mas, por outro lado, a possibilidade de propor alguma coisa que vai ganhar vida e interferir direta ou indiretamente no cotidiano de tanta gente é estimulante. Não que uma caixa de sapatos vá mudar a vida de ninguém, mas vai ajudar a construir o cenário de vida de todo mundo que com ela tiver contato. De bloquinho em bloquinho, é isso que constrói o mundo material artificial, no fim das contas. Há tantos estudos quanto se possa contar mostrando claramente que esse tal cenário tem impacto importante na experiência de vida das pessoas e isso já não está em disputa. Mas cada bloquinho ao qual damos forma ganha vida própria e entra para as histórias individuais e coletivas de uma maneira normalmente silenciosa, mas perene.
É nesse sentido que uma reflexão que parte de uma constatação óbvia, mas muito verdadeira sobre o que se faz em Design, ganha lugar. Não se pode projetar significados de maneira determinística. O significado é um acordo. Os códigos que empregamos em Design só se fazem valer quando assimilados, aceitos pelo outro. As coisas ganham vida própria quando expostas ao mundo. Claro, há que se guardar atenção a proporções. Um objeto criado em um contexto de design autoral costuma ser descrito pelos designers que o fizeram, de modo que o conceito que motivou sua criação é comunicado de maneira a ajudar na interpretação das outras pessoas. Já um produto industrial projetado por uma equipe e que passa por outras tantas, desde o setor de marketing até os publicitários que o apresentarão ao público, por designers que nunca tiveram contato com a equipe original e que contarão outras histórias tendo esse mesmo produto como centro, em materiais de ponto de venda, cartazes e vídeos, por exemplo, terá seu conceito gerador reinterpretado tantas vezes que esse se diluirá, até virar outra coisa. Contudo, em ambos os casos, o público pode, e comumente o faz, criar sentidos próprios para os objetos. Isso não significa que conceituar é um exercício de futilidade. Pelo contrário, até. Só quer dizer que as coisas têm significados múltiplos a depender de a quem se pergunta. Profissionais de Design precisam construir significado quando projetam porque, sem essa mira, tomam decisões contraditórias que podem implicar significações indesejadas ou simplesmente diversas do que se almeja com uma proposição, mas, como o próprio termo diz, trata-se de proposições. Por natureza, uma proposta pode ou não ser aceita ou pode receber, em resposta, contrapropostas por parte de interlocutores diferentes. Mais uma vez, trata-se de um jogo de apostas, o que não significa, de maneira alguma, que as decisões tomadas ao longo de seu curso deixam de ter impacto nas respostas obtidas ao final.
Há que se considerar, ainda, que as coisas mudam com o tempo. Quantos exemplos temos de objetos, produtos, lugares e tudo mais que se possa projetar mudando de sentido em razão do tempo? Não é sequer necessário pontuar casos específicos para se falar a respeito, mas é fácil pensar em roupas que mudaram de significado em uma década ou até menos, lugares que passaram de badalados a evitáveis rapidamente, carros que foram assimilados a ideias futuristas e viraram passado distante tão rápido que parecem ter nascido fadados a esse fim. Tudo isso só nos relembra e reafirma que essa tal rede de sentidos que tem muitas camadas, atingindo esferas individuais e globais é viva e pulsante, altera-se a todo o momento. É com esse material essencial que se lida em Design. Essa é nossa matéria prima e esse o nosso tema de atenção. Portanto, abracemos a incerteza e façamos dela nossa companheira. Até porque, qual a alternativa?
A incerteza em questão causa um grau de angústia pouco tratado em trabalhos sobre Design. Na verdade, não me recordo de ter visto esse assunto discutido em algum texto ou congresso. Mesmo sendo tema recorrente em conversas de corredor entre designers e motivo de aconselhamentos em orientações de todos os níveis, da graduação ao doutorado, em que professores se veem quase exercendo o papel de terapeutas. Não se trata de um reflexo de pouca experiência, coisa de recém-formados ou estudantes, já que experimento esse reflexo até hoje, mesmo depois de 20 anos como profissional e tendo ouvido relatos de designers com carreiras bem mais longas reafirmando que essa tal angústia não muda. O que muda é que nos acostumamos a ela. Passamos a conviver de maneira mais tranquila com essa sensação de deslocamento interno que, para quem ainda não está habituado, provoca vontade de parar, como dizíamos entre meus antigos colegas de turma na graduação, sair correndo e gritando pela rua. Com o tempo, aprendemos que basta seguir o curso do processo criativo para que a vontade de parar se converta em um impulso para continuar. A angústia de se criar novos projetos em Design vira motor para essa mesma criação e resulta numa espécie de alívio psíquico quando o projeto finalmente ganha espaço no mundo físico. Parece mesmo com a sensação descrita por pessoas com alguma obsessão, como uma coceira lá no fundo da mente que só pode ser aliviada quando o desfecho do impulso se realiza.