Edição, Representação e Tratamento Estético
Mais uma vez, faz-se necessário questionar a própria ideia de método como algo padronizado e capaz de uniformizar os processos criativos, garantindo sucesso. Nada parece mais afastado da realidade projetual. A identidade criativa de cada designer ou equipe de designers se demonstra em cada etapa do processo de desenvolvimento projetual, já que se trata, ao fim e a cabo, de uma série de tomadas de decisão. Projetar é escolher caminhos, interpretar, processar informações e decidir como empregá-las. Não há método capaz de eximir profissionais ou estudantes de responsabilidades ou de lhes garantir sucesso.
O repertório pessoal, construído a partir do estudo e de vivências particulares, é acessado a todo momento para que esse processo decisório aconteça. Resultado disso é o fato de que um mesmo conceito será interpretado de maneiras diferentes por designers diferentes. Contudo, é possível ponderar sobre o tratamento dado a esse processo decisório para que não se enrede o assunto em outra aura quase mística, de aleatoriedade ou de algo relegado à esfera do talento, exclusivo de um grupo especial.
Após a criação de um conceito, nos processos seguintes, de geração de ideias, geração de alternativas e formação geral da coisa em si, o sentido daquilo que está sendo projetado passa por refinamentos. A construção do conjunto que envolve forma, materiais, texturas, cores, dimensões, peso, dentre outros fatores, acontece de maneira gradual. Por mais que, por vezes, possa parecer que aquele objeto já estivesse nitidamente formado na mente de quem o cria antes de tomar espaço no mundo concreto, projetos em Design não nascem prontos. Precisam amadurecer, passar por edições. Ainda antes dos mockups, modelos físicos ou virtuais e, bem antes, dos protótipos, é preciso passar com o projeto pelo que podemos chamar aqui de tratamento estético.
O conceito gerado, outra vez, entra em ação para guiar mais essa parte do processo, como não poderia deixar de ser. O briefing também cumpre seu papel, limitando e recortando os enfoques decisórios. Essa é uma fase projetual delicada, cheia de sutilezas e em que o repertório individual acaba por desempenhar grande peso no processo decisório. Por acontecer normalmente de maneira fluida e rápida para a maioria dos profissionais experimentados, o tratamento estético pode vir a parecer quase metafísico, mas o processo de tomada de rumos, nesse momento do projeto, volta-se para aquilo que quem está à sua frente seja um indivíduo ou um grupo, entende por possível e desejável.
É muito comum ouvir, nessa fase, designers dizendo que gostam ou não gostam de um desenho que eles mesmos fizeram ou que alguém da equipe apresentou. Esse gosto é, de fato, atenção à adequação daquilo que se vê representado ao que se vislumbra como resultado esperado, tratado esteticamente. É como um confronto entre o que é e o que deve ser, acontecendo em curtas frações de tempo. Platonismos à parte, em suma, um projeto de Design é, sim, limitado pelo briefing, que aponta as condições em que algo precisa existir, mas é, também, limitado pela leitura de quem cria daquilo que é ou não possível e desejável.
O possível atrela-se a um domínio técnico. Saber, por exemplo, que ângulos de saída são necessários para que uma peça em plástico injetado seja fabricada interfere grandemente no momento da concepção de produtos que usam essa técnica. Mas o desejável é mesmo limitado pela imaginação de quem segura a caneta e faz o desenho. Se a pessoa que representa a ideia teve contato com um movimento artístico ou outro, se já viu de perto os detalhes presentes na construção de objetos do passado em um museu, se assistiu a filmes desse ou daquele gênero etc., todas essas experiências são parte constituinte do repertório que vai formar a visão dos designers daquilo que é desejável para cada projeto, interpretando as condições para chegar ao que se almeja.