Eduardo Augusto Costa, Felipe Kaizer
Apresentação
Este livro é resultado de uma busca por uma melhor compreensão das práticas historiográficas implicadas na História do Design, com especial atenção para o contexto brasileiro. Entendemos que os problemas historiográficos são basicamente aqueles referentes à escrita da história em suas dimensões sociocultural, sociopolítica, metodológica e epistemológica. Uma história que é produzida por sujeitos interessados e investidos em problemas, que ocupam posições sociais, culturais e políticas, que, por sua vez, enquadram, promovem ou legitimam sua escrita.
O comprometimento com esses e outros problemas nos levou a criar, em 2024, o Laboratório Design, História, Matéria e Memória (dhmm), que se organiza também como Grupo de Pesquisa cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológica (cnpq). Nele, trabalhamos ao longo de quatro linhas de pesquisa, nomeadamente: Cultura Material e Historiografia do Design — que investiga o intercâmbio entre a História do Design e os Estudos da Cultura Material; História Ambiental do Design — que busca reconhecer e estabelecer balizas metodológicas de trabalho junto a esta abordagem da História do Design; História e Historiografia do Design no Brasil — que busca reconhecer marcadores teóricos, metodológicos e temáticos; e Questões Culturais na Pesquisa do Design — que explora as questões de cultura e identidade na pesquisa em Design. Essas quatro linhas de pesquisa estruturam o nosso esforço de organização e crítica das histórias e teorias do Design, buscando estabelecer um chão comum sobre o qual novas perguntas, pesquisas e reflexões possam se apoiar.
O mesmo interesse nos levou à organização do Seminário Problemas de Historiografia do Design, que ocorreu em 28 de novembro de 2024, no Auditório Ariosto Mila, no Edifício Vilanova Artigas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design — fau-usp. O Seminário contou com a participação dos professores convidados que assinam os textos deste volume, a saber, Rafael Cardoso (Freie Universität, Berlin), Marcos da Costa Braga (fau-usp), João de Souza Leite (esdi/uerj) e Joana Mello de Carvalho e Silva (fau-usp). Os convites foram feitos com o intuito de abrir um espaço de reflexão sobre o estado da disciplina da História do Design passadas mais de três décadas desde o estabelecimento dos primeiros programas de pós-graduação em Design e após uma série de eventos científicos que tematizaram a disciplina no Brasil.
Nosso objetivo era que os convidados debatessem seus pressupostos teóricos e conceituais, seus métodos de trabalho, interesses e visões sobre a História do Design, na interface entre o contexto brasileiro e o internacional. Tratava-se, portanto, de uma tentativa de localizar a posição que cada um desses historiadores ocupa na disciplina no Brasil, e não apenas a trajetória particular, individual ou autoral, de cada um. A escolha dos historiadores aqui reunidos representa, assim, uma pequena amostra da diversidade das práticas e abordagens historiográficas em curso no Brasil junto ao Design, assim como de suas relações interdisciplinares.
Embora reduzido, o grupo aqui reunido se mostrou suficientemente complexo para reconhecer a diversidade das visadas intrínsecas à Historiografia do Design no Brasil. Um cenário diverso e, muitas vezes, dissonante, que demanda qualificados investimentos de pesquisa por parte da comunidade acadêmica, aportes de recursos das agências de fomento e outras estruturas de produção do conhecimento.
O texto de Rafael Cardoso faz contribuições importantes. No Brasil, o historiador é conhecido por ter publicado obras de referência para a História do Design e por ter contribuído com a organização de trabalhos que propuseram revisões de objetos e problemas. Cardoso apresenta a própria trajetória, problematizando o modo como seus interesses e suas perguntas deram forma às pesquisas e, consequentemente, aos livros que publicou. No entanto, a singularidade de sua contribuição está no questionamento que propõe em relação à autonomia da História do Design. Rafael Cardoso reconhece a independência disciplinar, identificando que o Design se emancipou da Arte e da Arquitetura. Por outro lado, argumenta que essa independência não implica uma dissociação. Para ele, não existe uma distinção metodológica entre a História do Design, a História da Arte e a História da Arquitetura. Todas elas estão enquadradas dentro do que se entende por História Cultural e, por isso, não há como apartá-las completamente. A escolha pela História da Arte — e não a História do Design — como disciplina que o representa deve-se à sua tradição e por entender que esta é a que melhor atende a abordagem holística que interessa problematizar em seus objetos de pesquisa.