Eduardo Augusto Costa,
Felipe Kaizer
Um mapeamento
da historiografia
do design
Este texto visa contribuir para o estudo no Brasil da disciplina da História do Design por meio de um mapeamento da historiografia nos contextos internacional e nacional. Sua primeira parte trata da distinção entre a disciplina e seu objeto de estudo por meio de comentários de textos que problematizam a questão. Sua segunda parte repassa os principais momentos e temas da historiografia do Design no Brasil, destacando alguns autores e textos-chave.
Como todo mapeamento, este é um panorama provisório e incompleto, no qual omissões são inevitáveis. Afinal, recordando um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges, um mapa do tamanho do território, coincidente com este ponto a ponto, seria inútil. Dos autores mencionados foram privilegiados os livros, quase sempre as primeiras edições.
Parte 1 – Contexto internacional
O seminário que deu origem a este livro partiu do reconhecimento de uma distinção fundamental entre a disciplina da História do Design e seu objeto de estudo; isto é, entre, de um lado, um conjunto mais ou menos estruturado de preceitos, conceitos, teorias, métodos, ferramentas e práticas de trabalho, bem como autores, publicações, organizações e eventos referenciais; e, de outro, as narrativas produzidas por meio desse conjunto a partir de uma diversidade de fenômenos sociais e culturais. Em suma, entre a Design History e a history of design.
O debate historiográfico sinaliza o amadurecimento da disciplina, quando esta reflete sobre sua própria história e constituição. Pode-se dizer que, hoje, a História do Design é uma disciplina autônoma, capaz de formular seus próprios problemas e investigar os métodos que utiliza. Trata-se, contudo, de uma disciplina jovem, com menos de um século de existência, tendo em vista a publicação de Pioneers of the Modern Movement, do historiador da arte Nikolaus Pevsner, em 1936, ainda considerada por muitos o marco inicial da disciplina.
A História do Design amadureceu rapidamente no contexto britânico dos anos 1970, no qual dois fatores contribuíram decisivamente: a obrigatoriedade do ensino das disciplinas de história estabelecida pelo Department of Education and Science após as recomendações dos relatórios do National Advisory Council of Art Education de 1960 e 1970; e a atuação em novas escolas politécnicas de professores e estudantes de design em prol do ensino de uma história mais condizente com a realidade profissional.
Em 1975, teve início o curso a305 History of Architecture and Design 1890-1939, da Open University, em Milton Keynes, e, na Politécnica de Newcastle, ocorreu a primeira de uma série de conferências sobre a História do Design. A segunda edição dessa conferência ocorreu na Politécnica de Middlesex, em 1976, e a terceira na de Brighton, em 1977, ocasião na qual se firmou a Design History Society (dhs), instituição responsável desde 1988 pelo Journal of Design History. Nos anais da conferência, a primeira secretária do dhs, a historiadora britânica Penny Sparke, reconheceu o caráter multifacetado da disciplina, identificando muitas design histories, “algumas que enfatizavam os vínculos com a história da tecnologia, outras mais fortemente ligadas à história social e à sociologia, e outras que empregam terminologia emprestada da história das belas-artes e das artes decorativas”.