Vinicius Guimarães

A Oficina Tribiani
e a pintura de tabuletas
no Rio de Janeiro na segunda
metade do século XIX

Ao longo de sua história, a cidade do Rio de Janeiro passou por várias reconfigurações urbanas, consequência de seu crescimento orgânico e de intervenções urbanas planejadas. Apesar das muitas perdas ocorridas nesse processo, quem caminha hoje por suas ruas ainda tem a possibilidade de, quando cercado por edificações que resistiram às mudanças, imaginar-se no cotidiano de um passado distante. Mas como ter contato com elementos de comunicação visual que fizeram parte desse mesmo ambiente ao longo do tempo, dada sua efemeridade quando comparados à perenidade da arquitetura? Esse conjunto de artefatos compõem o que pode ser entendido como gráfica urbana (Otake, 1982). O conhecimento sobre diferentes momentos do seu passado, tão caro à criação de reconstituições cenográficas e que pode ser respaldado pela história do design, contribui para a construção de uma memória da gráfica urbana.

No caso carioca, apenas em 1808, com a chegada da família real portuguesa, passam a ser publicados relatos textuais e visuais sobre as ruas, produzidos por quem viveu ou passou pela cidade. Essa nova iconografia, não mais restrita aos registros cartográficos ou às vistas panorâmicas do litoral a partir do mar, desde seu início atesta a existência de letreiramentos públicos. Essa categoria é entendida aqui segundo definição de Petrucci (1985), como inscrições concebidas para serem usadas em espaços abertos, grandes o suficiente para permitir a leitura coletiva à distância.

A pesquisa em fontes históricas, em especial anúncios publicados em periódicos, traz à luz um ofício dedicado à produção de artefatos dessa natureza — o do pintor de tabuletas. Em 1822, meses após o Rio de Janeiro tornar-se capital de um Brasil independente, um francês de quem não se sabe nem mesmo o nome prometia fazer "sertas qualidades de pinturas, como sejão em taboletas, ou letreirôs em portas de lojas, tudo com perfeiçam, e preço comodo." Anúncios semelhantes de outros profissionais podem ser encontrados em periódicos locais ao longo das décadas seguintes, mas é a partir da publicação do Almanak Laemmert, em 1844, que informações sobre os ofícios relativos ao campo profissional da pintura são concentradas em uma única publicação.

Desde sua primeira edição anual, o Almanak Laemmert trazia uma seção dedicada a pintores de diferentes ramos. No entanto, somente em 1847 encontramos os primeiros profissionais que apresentavam entre suas especialidades a produção de artefatos de letreiramentos públicos: Berard "letras, decorações e emblemas. R. dos Latoeiros, 23" e Francisco Kehrt "rua da Conceição, 13, pinta carruagens, tabuletas de lojas, &c." A partir de 1848, a categoria geral dos pintores é desmembrada em outras mais específicas, uma das quais denominada a partir de 1850 "pintores de casas, seges, tabuletas, letreiros e forradores de papel".

Foram identificados, a partir do Almanak Laemmert, os pintores de tabuletas, também denominados pintores de letras, atuantes no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XIX, sobre os quais se levantou um volume considerável de informações (Guimarães, 2021). Desse conjunto inicial destacou-se o pintor Fabio Tribiani, pelo tempo que ficou em atividade, pela quantidade de anúncios publicados em jornais e pela quantidade de informações de outra natureza encontradas nos periódicos. A análise específica da sua história permite realizar uma série de apontamentos sobre os demais pintores de tabuletas atuantes no mesmo período.

1. Fabio Tribiani

Fabio Domenico Tribbiani (que no Brasil adotou a grafia Tribiani) nasceu em Siena, na Itália, em 26 de maio de 1826, filho do comerciante Benedetto Tribbiani e da tecelã Rosa Corsi. Em 1848, participou como voluntário da primeira guerra de independência italiana, fazendo parte do Batalhão Pisano-Sennese. Na década de 1850 mudou-se para Gênova, onde atuou como dourador pelo menos desde 1854, e permaneceu até mudar-se para o Brasil. Nesse período teve trabalhos premiados em três Exposições locais, fato que foi usado como carta de apresentação ao começar a atuar no novo país.

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