Rômulo do Nascimento Pereira

Memória gráfica
na margem:
ampliar para mapear
o circuito de comunicação impressa no Amazonas
(1851–1910)

Este texto aborda parte da história da cultura impressa na região amazônica brasileira a partir do mapeamento do circuito de produção gráfica do Estado do Amazonas, realizado com ênfase nas oficinas tipográficas ativas durante o período de 1851 a 1910. A pesquisa que motivou esse estudo reuniu um extenso conjunto de objetos primários, informações, agentes e marcos históricos, muitos deles, podemos considerar, até então dispersos ou mesmo pouco conhecidos. A fim de dar coerência à leitura dessa diversidade de informações, elas foram articuladas neste mapeamento, como uma tentativa de representação do complexo cenário amazonense a partir da cultura impressa. O texto que segue busca mostrar como essa trama de relações foi configurada a partir de um modelo e, tendo este como base, apresentar informações sobre a dinâmica do trabalho dentro das oficinas gráficas ao longo de seis décadas, sobretudo na capital do Estado do Amazonas, Manaus.

A rede em torno da cultura impressa avançou de forma lenta na recém-criada Província do Amazonas, mas serviu como elo de integração com o restante do país. Em 1851, quando Manaus recebeu sua primeira oficina tipográfica, a cultura oral, sustentada pela língua geral amazônica, ainda era predominante. Essa tensão é significativa: de um lado, a cultura letrada em português, imposta pelo colonizador com o uso artifício da tecnologia tipográfica, com o ensino da língua portuguesa nas escolas; de outro, a luta da cultura dos povos originários, a cultura oral, da língua geral amazônica, que também foi apropriada e difundida por exploradores europeus. É justo apontar que esse confronto já se desenhava desde a política pombalina de repressão e uniformização, que procurava moldar a região aos interesses da coroa portuguesa.

Este trabalho adota uma postura crítica ao abordar a história do design no Brasil à “margem”, em sentido duplo: primeiro, como contraponto a um centro que costuma desvalorizar a produção não canônica, vista como menor, exótica ou atrasada; segundo, como fronteira de um território ainda pouco explorado, onde o trabalho com fontes primárias, recortes de tempo amplos e grande diversidade de artefatos, impõe desafios adicionais.

O olhar atento às margens se reflete no relato da pesquisadora Edna Cunha Lima (2023, p. 16), em que descreve a mudança de perspectiva que viveu ainda na década de 1980. Sua formação modernista foi colocada em xeque durante a pós-graduação realizada na Universidade de Reading, na Inglaterra, levando-a a revisitar a paisagem gráfica brasileira com outro olhar, valorizando os impressos do século XIX e, em especial, a tipografia e a litografia comercial, tradicionalmente negligenciadas. Em suas palavras, essa virada crítica exigiu:

... suspender certezas, tive que desnaturalizar o objeto gráfico. Fui me afastando das noções modernistas que sugeriam que o design seria guiado por metodologias universais. Passei a ver que todo objeto gráfico é produto de seu tempo e que variam não só os métodos de produção como também as especificidades da linguagem de cada época. Passei a entender que não existem elementos neutros, o que me levou a estudar os tipos, meu interesse atual (Lima, 2023, p. 20-21).

Inspirado no conceito de Circuito das Comunicações, de Robert Darnton (1982), que entende o impresso como ponto de articulação de diferentes agentes e instâncias, este trabalho adapta o modelo de circuito para detalhar a etapa de produção gráfica, acrescentando elementos essenciais para representar a complexidade do setor gráfico, aplicado no contexto amazonense. Sua aplicação resultou em cenário mais amplo a partir de um conjunto de informações sobre variados agentes, com um detalhamento das oficinas tipográficas como espaços sociais complexos.

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