Ana Dias de Alencar

Das artes plásticas
ao design:
Aloisio Magalhães e
sua decisão pela
atividade projetiva

A atuação plural de Aloisio Magalhães, pautada na prática e no ensino do design, mas guiada também pela preocupação com o desenvolvimento sociocultural e econômico de um país ainda novo, cujo frescor é propício a iniciativas de caráter genuinamente brasileiro, nos auxilia continuamente no pensamento de nosso campo. Em uma análise do significativo número de produções acadêmicas que abordam sua produção intelectual ou material, é possível perceber que ainda pouco se discute a maneira como se dá a construção da linha de pensamento que une o artista plástico, função que Aloisio exerceu até o final da década de 1950, ao designer. Assim, é por entender que este processo de transformação pessoal tem fundamental importância na estruturação de um personagem que nutre, mesmo atualmente, a prática e a disciplina do design no Brasil, que optei por investigar este momento específico da trajetória de Aloisio Magalhães: o abandono das artes plásticas para a entrada na atividade projetiva própria ao design.

Durante a pesquisa a respeito das circunstâncias em que este movimento ocorreu, e ao analisar o vai-e-vem de Aloisio Magalhães entre Brasil, Europa e Estados Unidos da América, comecei a questionar se teria sido a experiência norte-americana vivida por ele a responsável por sua decisão de caminhar em outra direção. O que teria se apresentado de tão especial a ponto de conduzi-lo à nova investida? Por que somente ali, em outro hemisfério, outra cultura e idioma, parece tornar-se evidente ao artista recifense a opção pela atividade projetiva do design? Tais perguntas incitaram as reflexões apresentadas neste estudo que, ao debruçar-se sobre o design americano de meados do século XX, lança luz, a partir do pensamento de Aloisio Magalhães, à questão da posição do artista no mundo contemporâneo industrial.

A fim de examinar um processo que se locomoveu do objeto único ao múltiplo, da arte para poucos indivíduos ao projeto para muitos, este texto enfoca o final da década de 1950 e início de 60. É nesta fase que, já pintor consagrado, Aloisio enxerga no design a forma de atuação mais acertada para o artista. Aqui, nos valemos, sobretudo, dos textos orais de Aloisio Magalhães — transcrições de suas colocações em aulas e palestras —, bem como de suas entrevistas a terceiros, de modo a tentarmos compreender não só suas intenções ao se decidir pelo design, como também sua preocupação em construir um pensamento próprio quanto à formação do campo no Brasil.

A experiência norte-americana parece preparar o terreno da nova empreitada. Além daquilo que a introdução da máquina offset e da impressão em grande tiragem vem a significar, a coerente adaptação do espírito bauhausiano à realidade industrial americana e a articulação daqueles designers simultaneamente em duas frentes, na prática do mercado e no ensino da disciplina, espelham-se na ação e no pensamento de Aloisio a partir de 1960, quando de fato se torna designer. Neste momento, o objeto único já não faz mais sentido. É apostando no diálogo da arte com a tecnologia industrial e no projeto como metodologia de sua produção que Aloisio integra-se em seu tempo. Designer, torna-se um artista verdadeiramente contemporâneo, empregando, em suas palavras, “recursos tecnológicos e científicos para provocar receptividade visual na massa” (Magalhães, 1966). Interessa-lhe, agora, o coletivo.

1. Aloisio Magalhães artista plástico

Filho de Dona Henriqueta Magalhães e do médico sanitarista e diretor da Faculdade de Medicina do Recife, Aggeu Magalhães, Aloisio Sérgio Barbosa de Magalhães nasceu no Recife, em 1927, e era o caçula dentre os quatro filhos do casal. Mesmo demonstrando desde menino aptidão pelo desenho, Aloisio ingressa na Faculdade de Direito do Recife em 1945, atendendo ao desejo do pai, preocupado com um futuro promissor para o filho, que, em seu entender, as artes não lhe poderiam oferecer. Naquele ambiente, envolve-se com o Teatro de Estudantes de Pernambuco, o TEP, cuidando do Teatro de Bonecos e desenvolvendo cenários e figurinos para as peças que aconteciam gratuitamente, abertas a todo público. Assim, é provável que o TEP tenha reavivado em Aloisio sua forte relação com a arte e em 1950, quando torna-se bacharel pela Faculdade de Direito, já mantendo há um ano seu ateliê junto do pintor Reynaldo Fonseca, não o anima a ideia de atuar como advogado.

Figura 1Aloisio Magalhães, Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho nos trabalhos para o TEP. Fonte: Acervo da família, sem data

Ao término da faculdade, Aloisio é contemplado por uma bolsa de estudos concedida pela embaixada francesa que possibilita sua permanência em Paris entre os anos de 1951 e 1952. Muitos artistas brasileiros estavam ali naquele momento. Francisco Brennand, Geraldo de Barros, o economista Mauricio Segall, filho de Lasar Segall, dentre tantos outros, viviam, por conta própria ou financiados pelo governo francês, em uma Paris bastante pobre e precária, em contraposição à riqueza e ao glamour de hoje (Souza Leite, 2006).

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