Moema David Oliveira
O hiato da história
das artes aplicadas
no Brasil
Sem memória não se
perde o passado.
Se perde o presente.
Patricio Guzmán, cineasta chileno, 2010.
O design possui interesses e saberes que podem colaborar nas tarefas dos estudos histórico-culturais que tentam identificar e aprender com as experiências do presente e do passado. Atividades de mediação cultural, como ensino e pesquisa histórica e práticas patrimoniais desenvolvidas por designers são exemplos de colaborações para o desenvolvimento de consciência histórica do campo de atuação do design e para marcar um papel político mais crítico no âmbito do patrimônio histórico nacional.
Vivemos um período de inflexão histórica em que diferentes representações da sociedade perguntam sobre o passado, questionam o processo de construção de narrativas herdadas e reclamam pelo reconhecimento do valor histórico de narrativas excluídas. Alinhado ao posicionamento político revisionista de cânones, e admitindo a tese da história do design no Brasil como parte do patrimônio histórico e artístico nacional, o texto se preocupa em problematizar a exclusão de parte da história do design, que se liga às artes aplicadas, das instituições de patrimônio do país, a fim de refletir a respeito do valor histórico do design.
Isso posto, o texto privilegia dois pontos da história do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: o projeto estético modernista com ênfase na materialidade artística e arquitetônica e a ampliação do conceito de patrimônio à imaterialidade, incorporando saberes e fazeres a partir da adoção do conceito de referência cultural.
Antes de seguir, cabe uma ressalva: aqui trataremos artes aplicadas como práticas que elaboram uma cultura de projeto no Brasil no século XIX, sejam elas artes técnicas vinculadas a saberes e fazeres vernaculares que se tornaram tradicionais, que são ensinadas e praticadas dentro da relação estabelecida entre mestre e aprendiz em ateliê; sejam elas artes técnicas baseadas no ensino artístico-científico promovido por escolas de artes e ofícios, visando o desenvolvimento das artes industriais durante o período compreendido pelo ecletismo no país.
1. O início do processo de exclusão das artes aplicadas do patrimônio e do ensino
A autarquia federal que o Iphan representa hoje nasceu a partir do anteprojeto para um serviço de patrimônio nacional, criado em 1936 pelo escritor modernista Mário de Andrade (1936 1981) a pedido do então ministro da educação e saúde Gustavo Capanema. O texto do anteprojeto tinha de fundo as preocupações relativas à identidade cultural nacional que animaram o grupo da elite brasileira, no qual se inclui Mário de Andrade, que integrou a Semana de Arte Moderna de 1922. O grupo de intelectuais e artistas modernistas propunham uma renovação nacional por meio da modernização das estruturas político-administrativas e culturais. Nesse sentido, colaborou para a criação de uma narrativa visual que conferisse unidade e singularidade cultural à nação. Para o grupo, tal discurso identitário nacionalista distanciaria a república brasileira da aura de colônia europeia.