A Literatura Periférica, dando voz à invisibilidade social
Alba Gabriela Moreira
Considerações iniciais
Este capítulo examina a importância e o fomento da Literatura Marginal ou periférica como ferramenta para dar voz às pessoas invisibilizadas pela sociedade. Oriunda dos bairros periféricos dos grandes centros urbanos do Brasil, incluindo a cidade de São Paulo. Essa literatura relata as vivências e experiências das comunidades marginalizadas, podendo provocar reflexões críticas sobre desigualdades sociais e culturais. Com base em Wolfgang Iser (2003), Terry Eagleton (2006), Spivak (2010) e Sartre (2019), buscamos examinar como a Literatura periférica, por meio da crônica Sombras Miúdas, de Sérgio Vaz, torna-se uma ferramenta de conscientização social.
Segundo Reyes (2013), entende-se por periferia os bairros que são comunidades geográficas situadas ao redor do centro da cidade. Os leitores são convidados a mergulhar nas realidades e desejos de seus habitantes, promovendo uma reflexão crítica sobre suas experiências. De acordo com Spivak (2010), o sujeito trata sua relação com a projeção da alteridade, caso se estabeleça como sujeito soberano.
O subalterno não fala, a menos que os termos da sua fala sejam definidos pelo discurso dominante. O discurso dominante é aquele que já pressupõe um contexto de poder, onde a voz do subalterno é incorporada em formas de representação que não podem ser inteiramente suas. Portanto, a fala do subalterno está sempre em risco de ser reduzida, reconfigurada ou distorcida pelas estruturas de poder que não o reconhecem em sua plenitude. (Spivak, 2010, p. 26.)
Para a autora, tal mecanismo é característico do pensamento europeu em que classes subalternas não tinham espaço para falar – não pela falta de uma voz propriamente dita – mas não eram consideradas merecedoras de atenção, uma vez que não há estruturas políticas, para que suas demandas fossem ouvidas. Nesse contexto, as experiências dos “outros” (não europeus) foram sistematicamente marginalizadas da produção científica, por meio da canonização de formas de conhecimento produzidas pelos países dominantes.
Segundo Mata (2014) o período pós-colonial caracteriza-se por uma crítica contundente à narrativa dominante, que sustentava a superioridade cultural dos países europeus e marginalizava as produções científicas, literárias e culturais dos países não europeus. Esse movimento buscou romper com a visão eurocentrista que, historicamente, relegava ao silêncio as vozes e conhecimentos de países não europeus.