Leitura do texto literário de Geni Guimarães
Uma experiência de vida e uma oportunidade de resistência da consciência negra
Jarbas Vargas Nascimento
Considerações iniciais
Este capítulo se orienta pela convicção de que é possível conferir à Literatura e ao texto literário um lugar privilegiado no domínio da leitura crítico-analítica de diferentes produções textuais literárias em circulação na sociedade brasileira. Como sabemos, a leitura é uma experiência complexa, mas que faculta negociar efeitos sentido para o leitor, a fim de que, com o escritor, conheçam mais a si mesmos e o mundo onde vivem, além daquilo que o texto materializa linguística, estética e socialmente. A leitura leva-nos a conhecer o misterioso, o secreto, o obscuro; ademais, amplia nosso conhecimento de mundo e transforma-nos, permitindo-nos apossar de experiências alheias e a aprender a lermos a nós mesmos por diversos ângulos. Assim, a recepção de um texto literário é objeto de formas variadas de leitura e negociação de efeitos de sentido.
Neste sentido, o ato de ler mostra-nos o mundo não somente na perspectiva do escritor, mas também capacita o leitor à apropriação social do conhecimento, democratizando informações novas, ao mesmo tempo em que nos possibilita o entendimento e a difusão de diferentes dados identitários e socioculturais. Por isso, a leitura deve ser apreendida como uma atividade compartilhada, pois implica uma relação interativa entre o escritor, o leitor e o contexto interacional em que se dão os atos de escrever e de ler. Os processos de escrita e de leitura, por conseguinte, produzem, simultaneamente, o escritor, o leitor e o mundo.
É importante reconhecer, a princípio, que o texto literário se relaciona à Literatura e deve apresentar uma tal elaboração estética que faça com que o leitor o distinga de outro texto não literário. Assim, como qualquer objeto artístico, o texto literário busca descrever o universo específico de cada escritor na organização social e assumir uma função estético-linguística, dentro de um estilo próprio de quem escreve (Candido, 2000). Desta maneira, a leitura desponta como uma oportunidade de reescritura do texto da perspectiva e da cosmovisão do leitor, podendo tornar-se, desse ponto de vista, até mesmo, em um material de notificação do apagamento que sofrem alguns sujeitos subalternizados pelo poder hegemônico, como é o caso das escritoras e de escritores negros. Esta reflexão ressoa como uma crítica a alguns teóricos da Literatura que, até o final do século XIX, no Brasil, reivindicaram dos cânones literários a valorização de determinados grupos culturais, secundarizando e excluindo outros.
Para que sirva de esclarecimento o que dissemos acima, vale a pena lembrar que, nas primeiras décadas do século XXI, surgiram várias escritoras e escritores negros, que publicaram textos literários em que traços de subjetividade étnico-racial são resgatados em suas produções, constituindo a Literatura Negro-Brasileira. (Cuti, 2010). Em certa medida, esta proposta trouxe mudanças de paradigma crítico-literária para a Literatura Brasileira, já que os escritores canônicos eram homens, brancos, burgueses. Assim, ao pensar o negro brasileiro, temos que considerar as contribuições estéticas e sociais, que esse sujeito cria e mantém ao longo da história da Literatura Brasileira e incorporá-las ao patrimônio cultural nacional que, organizado por determinações do poder hegemônico, ficaram apagadas durante séculos para prevalecer a identidade branca. Nesta perspectiva, a Literatura Negro-Brasileira, como uma ferramenta político-cultural, almeja refletir determinadas relações sociais a tal ponto que, a esse respeito, Cuti argumenta que
os sentimentos mais profundos vividos pelos indivíduos negros são o aporte para a verossimilhança da literatura negro-brasileira. ... O sujeito étnico negro do discurso enraíza-se, geralmente, no arsenal de memória do escritor negro. (Cuti, 2010, p. 80, 82).