A leitura do texto literário como espaço de desvendamento
Ricardo Domingos Pinto e Silva
Considerações Iniciais
Apoiando-nos na perspectiva da leitura do texto literário como instrumento para uma abordagem crítico-analítica de compreensão da produção literária escrita em língua portuguesa, este capítulo apresenta reflexões acerca da emergência, na Literatura Brasileira contemporânea, de novas autoras que se destacaram como vozes marcantes no enfoque de questões culturais, políticas e sociais. A subjetividade adjacente à abordagem feminina, presente nesta vertente da Literatura Brasileira, resgata temáticas e desvela percepções sobre a condição da mulher, valorizando o trato com a palavra.
Sobre o que não falamos, segundo romance da escritora Ana Cristina Braga Martes, retrata a busca pela construção do sentido da verdade em uma narrativa envolta no desvendamento de segredos domésticos, por meio do autorrelato da jornada de amadurecimento de uma pré-adolescente que nunca conheceu os pais. Ela foi criada pelos avós em uma pequena cidade do interior do estado de São Paulo, onde residem trabalhadores e pequenos comerciantes. Vivendo sob o jugo do autoritarismo de representantes das instituições locais, durante os anos da ditatura militar, a personagem narradora desnuda uma época marcada por problemas como a injustiça, a ocultação da verdade, a violência contra as mulheres, as desigualdades de raça e gênero numa sociedade fortemente patriarcal.
Situações simples e cotidianas, cenas domésticas e comunitárias protagonizadas pela jovem pré-adolescente, durante o ano de 1975 e início de ١٩٧٦, expressam vivências poéticas e significativas, que revelam a habilidade da autora em capturar o lirismo dos momentos íntimos e transfigurá-los em reflexões profundas sobre a vida e a condição humana. Ana Cristina Braga Martes explora as dinâmicas familiares, as relações interpessoais e humanas, destaca a profundidade emocional dessas conexões e adota um estilo literário marcado por uma subjetividade poética.
A protagonista narradora de Sobre o que não falamos busca conhecer a si mesma e sua ancestralidade, e conscientiza-se aos poucos que depende da revelação de segredos, da transposição da opacidade e omissão de seus avós, amigos e vizinhos, para superar os empecilhos e desvendar sua própria história pessoal. Em sua luta para decifrar o mistério sobre seus pais, a jovem também inicia uma jornada de descoberta das palavras, das versões das narrativas e das ambiguidades dos textos, do sentido subjacente ao silêncio e do que não é dito. Valendo-se da mediação de sua professora, a jovem procura aprimorar-se como leitora. Lança-se à procura dos instrumentos que lhe faltam, para perceber o sentido das palavras que são proibidas, para compreender o despertar das paixões que os fatos, as narrativas e as versões suscitam nas diferentes pessoas do seu entorno, e para descobrir o que o silêncio forçado que se impõe sobre a comunidade onde cresce oculta.
Ao registrar sua busca no texto que passa a narrar, a leitora aprendiz transforma-se em autora de sua própria história. E esta revelação lhe permite tomar consciência sobre a situação social e política de seu país. Freire (2022, p.22) ressalta, pela significação que tem para a compreensão crítica do ato de ler, e consequentemente, para a proposta de alfabetização pela qual se consagra, que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta, implica a continuidade da leitura daquele.