Identidade, memória e denúncia na obra literária de Liliana Laganá

Célia Regina Rodrigues Gusmão

Considerações Iniciais

Neste capítulo, recorremos às visões de diferentes críticos que conceituam a arte literária, com uma abordagem acerca da função social da Literatura, de acordo com o proposto por: Moisés (2004), Cândido (2011), Compagnon (2010) e Eagleton (2006). Outro ponto em que focamos se refere à classificação de uma obra literária quando ela contém o entrecruzamento de culturas em sua concepção. Consideramo-la como Literatura do país onde foi concebida? Em outras palavras, podemos considerar como Literatura Brasileira o texto escrito no nosso idioma pátrio que contém questões referentes à cultura de outro país? Para responder a essas perguntas, discutimos sobre o papel do escritor ao conceber uma obra que mescla a cultura de dois países.

Nessa perspectiva, avaliar o que é ou não é literário depende não só dos objetivos do escritor ou do emprego especial da linguagem, mas também da recepção do leitor e das condições sócio-históricas de produção da obra, entre outros fatores. Considerar o contexto em que o texto literário é produzido amplia a compreensão a seu respeito, pelo fato de propiciar o conhecimento de informações sobre sua elaboração, tais como: a mentalidade social vigente à época; a cultura da sociedade na qual a obra está inserida; os dados biográficos do próprio escritor que podem se refletir no seu fazer literário etc.

Para a leitura literária proposta, escolhemos o livro _Em nome do pai _(2023), de Liliana Laganá. A escritora nasceu na Itália (Roma), em 1939, e veio para o Brasil em 1955. No País, terminou o ensino básico, ingressando, logo após, na Universidade de São Paulo (USP), onde se graduou em Geografia. Depois, naturalizou-se brasileira para ser professora da mesma universidade, onde lecionou por 25 anos. Em 1977, uma viagem à Itália trouxe à tona suas recordações e ela começou a escrever textos com a temática da imigração.

Em suas obras, a escritora revive o passado, relatando memórias de fatos individuais e coletivos, mesclando-os à ficção. Sua produção literária se inicia com a elaboração de contos e crônicas sobre as lembranças de infância. Posteriormente, faz diversas traduções de livros do italiano para o português. A obra da escritora Liliana Laganá representa importante contribuição para a manutenção da memória dos imigrantes italianos no Estado de São Paulo e no Brasil (Castro, 2006, p. 161).

No século XX, com a crise provocada pelas duas grandes guerras mundiais, o Brasil recebeu, em diferentes décadas, ondas migratórias de diversos povos, tais como: japoneses, libaneses, alemães, ucranianos, poloneses, italianos. Em seu esforço de adaptação ao novo país, os imigrantes que aqui aportaram trouxeram seus costumes e seu idioma, mantendo traços da sua identidade cultural de origem. A presença de italianos e de seus descendentes é marcante em algumas regiões do Brasil, tanto que a Literatura Brasileira os reconhece ora como personagens ora como escritores, em obras como: Canaã (Graça Aranha), ou O estrangeiro (Plínio Salgado), _Novelas Paulistanas _(António de Alcântara Machado). A memória dos italianos é muitas vezes preservada por seus descendentes brasileiros, entre os quais escritores como Agrippino Grieco, Menotti Del Picchia e Zélia Gattai (Ghiradi, 1994, p. 8).

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