Cristina Cavallo

Design e autonomia:
da virtualidade do
campo ao projeto
de uma educação
para o fazer

O texto a seguir é fruto de um conjunto de reflexões empreendidas para a elaboração da tese de doutorado intitulada Projeto e autonomia: pressupostos pedagógicos para uma disciplina de Design na educação básica brasileira, defendida em dezembro de 2020, no Programa de Pós-Graduação em Design da Escola Superior de Desenho Industrial, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPDESDI/UERJ). A tese tinha por objetivo propor, por meio do design, uma disciplina pautada na educação para o fazer e pensada para integrar o currículo da educação básica no Brasil. Tal proposição fundamentava-se na premissa enunciada pelo filósofo Richard Sennett (2015) de que fazer é pensar, e visava apontar a necessidade de uma educação que pudesse agir na promoção do senso de autonomia dos indivíduos e no aprimoramento de competências projetivas e artesanais.

Quando nos colocamos a pensar sobre as questões de natureza econômica e social em nosso país, tendemos a pensar que a educação (em um conceito mais genérico) é a solução para esses problemas a médio e longo prazo. Contudo, acreditamos ser primordial refletir sobre que tipo de educação seria essa. E foi essa reflexão que nos levou à ideia de uma educação para o fazer.

No Brasil, não há disciplinas na educação básica que compreenda design, ofícios artesanais ou tecnologia, o que nos parece comprometer a formação da sociedade, em termos de competências e habilidades para lidar com problemas complexos, e o avanço industrial e econômico do país. Partindo da ausência de formação técnica e artesanal em nosso currículo escolar, associada à desconexão histórica entre o fazer e o pensar, enxergamos no campo do design a possibilidade concreta de uma disciplina orientada pelas competências e habilidades de projetar e construir coisas, fundamentada em metodologias ativas e capaz de introduzir e aprimorar a linguagem da modelagem.

Nos permitimos, portanto, invocar o design para uma missão de reconexão das mãos e do cérebro, numa reversão histórica daquilo que caracterizou a origem da profissão que conhecemos como designer ou, desenhista industrial, em fins do século XVIII, no alvorecer do processo de industrialização na Inglaterra.

Essa permissão se dá por um entendimento atualizado do design, já distante daquela atividade industrial pautada na divisão do trabalho, na qual o cérebro do designer projetava para que a máquina pudesse produzir. Um entendimento no qual o design é um discurso intencional e polifônico, orientado a agir intencionalmente sobre qualquer situação, motivado por qualquer propósito ou interesse, e é, também, uma arte do pensamento, direcionada à ação prática por meio da persuasão dos produtos (materiais ou imateriais) que concebe — seus argumentos (Buchanan, 1985). Um entendimento do design, ainda, como a arte do prático e do possível, sendo capaz de criar coisas que atendam a qualquer situação, motivado pelos mais variados propósitos, interesses ou desejos (Buchanan, 1992).

Ambiente de projeto por excelência, o design dedica-se a pensar em como fazer, ao mesmo tempo em que é a própria ação de fazer coisas. Seu campo reúne um corpo de conhecimento tanto teórico quanto empírico, plasmado a partir da prática profissional e das pesquisas. Um campo transdisciplinar, atravessado por diferentes disciplinas essenciais a cada projeto, como a física, a química, a matemática, a filosofia, a psicologia, a comunicação, a história e a antropologia, entre outras.

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