Felipe Kaizer

O drama e a
era do projeto

Este texto apresenta a teoria do design proposta em meu livro e explora o surgimento de uma ideia central para a teoria, a saber, a de futuro contingente, articulada no contexto de ascensão de Estados laicos europeus a partir do século XVII. Também apresenta brevemente a Era do Projeto, expressão utilizada por Daniel Defoe em 1697 para nomear uma nova ordem temporal marcada por um tipo de futuro suscetível às ações humanas.

A ideia de futuro contingente não tem lugar na tradição das artes e ofícios que deu origem à concepção moderna do design. Nessa tradição, predomina a ideia de finalidade, legada por um pensamento filosófico mais antigo, enraizado na metafísica. De acordo com esse pensamento, o design, como uma arte aplicada, seria uma prática de elaboração de desenhos a partir de modelos, e o produto do design seria uma obra que detém um valor determinado por critérios estéticos ou utilitários preestabelecidos. Mais ainda, a obra representaria a finalidade última, o sentido fundamental, a essência de toda prática de design. Em outras palavras, o design seria apenas mais uma forma de produção ou fabricação, regida pela lógica dos meios-para-os-fins. Por exemplo: o martelo teria sido criado para pregar o prego; o prego, para prender as madeiras do armário; o armário, para guardar as ferramentas, entre elas, o martelo.

A ideia de futuro contingente é antitética à ideia de finalidade. A contingência do futuro indica nossa incapacidade de conhecer os eventos vindouros. Ou seja, da perspectiva do hoje, qualquer evento pertencente ao amanhã pode igualmente ocorrer e não ocorrer. Tal ambiguidade não se resolve antes que tal evento de fato ocorra ou não ocorra, isto é, apenas se resolve após a chegada do amanhã. De outro modo, segundo a lógica da finalidade, tudo aquilo que não ocorre como o esperado é chamado de “acidente”. Há, portanto, uma incongruência entre a concepção do design como produção e a ideia de futuro contingente. E o fato de que o processo de design gera resultados inesperados ou acidentais é um problema teórico de primeira ordem e não apenas um inconveniente mais ou menos recorrente.

Meu livro aborda esse problema ao tentar compreender o design como um processo voltado ao futuro. Ele vale-se das investigações teóricas acumuladas desde os anos 1950 que propuseram uma nova concepção de design, mais afeita à transformação de contextos, ambientes e situações, e não mais restrita à produção de imagens e objetos. O livro propõe a investigação do modo como essas transformações vêm a ser por meio de ações e relações pessoais. Nesse sentido, propõe uma leitura política do processo de design, atenta ao modo como os projetos efetivamente ocorrem e assumindo todos os percalços, efeitos colaterais e imprevistos que acompanham a criação de algo novo.

Pensado como processo, o design implica a ideia de futuro contingente. Mais ainda, entendido politicamente, o processo de design explicita como à contingência se liga às ações humanas. Em suma, o drama do projeto é uma tentativa de interpretar o processo de design como o resultado do encontro de agentes que, agindo sobre um problema comum, criam uma situação de projeto que os vincula. À medida que transcorre, esse processo tem efeitos imprevisíveis, que escapam às intenções dos agentes, não em função de meros acidentes de causa externa, mas em função da maneira como as ações humanas têm efeito umas sobre as outras. Isso define a contingência implícita nas situações de projeto. Logo, como ação voltada ao futuro, todo projeto tem de se haver com tal contingência. Sem ela, é impossível pensar como os projetos podem dar luz a algo verdadeiramente novo.

Essa concepção do design como um processo ganhou maior relevância após a Segunda Guerra Mundial, quando profissionais e teóricos foram levados a repensar o sentido do design diante da ascensão de uma ordem global que desafia a capacidade humana de projetar o mundo que habitamos. Tornou-se mais evidente o fato de que esse mundo é, em larga medida, artificial ou construído pelo ser humano (man-made world), bem como o domínio exercido por grandes organizações nessa construção. Nesse cenário, os designers formados na tradição do disegno e do modern design encontram-se deslocados dos centros de decisão enquanto não assumem outra postura em regimes multiprofissionais. Fundamentalmente, trata-se de uma nova era na qual houve uma mudança na escala do projetar: de imagens e objetos a sistemas, ambientes e organizações.

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