A dupla matriz projetual
Quando em ação, designers criam maneiras de elucidar ao máximo a demanda ou oportunidade apresentada. Seu contexto, pontos condicionais a serem trabalhados e todos os fatores que enquadram e recortam um determinado projeto. A constituição dessa elucidação toma a forma de um briefing projetual. Esse termo figura como destaque em todos os manuais de projetos, dos mais completos aos mais sintéticos, incluindo os clássicos, amplamente utilizados como referência em cursos superiores da área ao redor do globo, como Design Industrial, de Bernd Löbach; Design: História, Teoria e Prática do Design de Produto, de Bernhard Bürdek; e Projeto de Produto, de Mike Baxter.
Tamanha é a atenção ao tema, que textos e trabalhos extensos se debruçam exclusivamente sobre traçar estratégias para uma feitura adequada do briefing em design. É o caso do livro Briefing: A Gestão do Projeto de Design, de autoria de Peter L. Phillips (2009). O autor relata experiências práticas de sua longa vivência como designer e gerente de projetos de design, mencionando que, quando de sua formação, na década de 1960, o assunto era visto superficialmente e, ainda, que seguiu ouvindo em seminários que as escolas permaneciam negligenciando o tema na educação dos profissionais. Contudo, em exercícios acadêmicos, os desafios projetuais propostos aos estudantes são, muito comumente, atrelados a uma série de condicionantes, constituindo um tipo de briefing, ainda que, por vezes, não tão detalhado. A prática profissional trata rapidamente de demandar atenção ao briefing por parte dos designers. Poucas experiências causam resultados mais frustrantes que um briefing mal estruturado, e é bastante comum que nos deparemos com designers que desenvolvem maneiras próprias de construir um documento de briefing para se resguardar de quaisquer mudanças de planos por parte do cliente/demandante, pedindo-lhes assentimento e ciência comprováveis via assinatura.
Associações de designers costumam oferecer modelos de estruturação e até templates prontos para o preenchimento e personalização, dando um começo genérico a ser tratado como base sólida para um briefing seguro, com menor abertura a mudanças repentinas de rumo e a tão comum e aterradora culpabilização quando o resultado apresentado não está a contento.
Ainda sob a perspectiva de Phillips (2009), o briefing não conta com uma fórmula pronta, em que se pode fiar um projeto. É preciso criar maneiras particularizadas para cada cultura empresarial, profissional e, em alguns casos, até para cada projeto. Trata-se, na verdade, de um conjunto de parâmetros organizados de acordo com a demanda que se apresenta. Esses mesmos parâmetros serão, ao fim do projeto, utilizados para verificação do grau de sucesso alcançado. Ele menciona parâmetros como prazo, orçamento, público ao qual se dedica o projeto, objetivo estratégico de seu desenvolvimento, dentre outros. O autor frisa que o briefing adequado é o retrato documental de um diálogo entre solicitantes e profissionais do design envolvidos na empreitada.
A noção de parametrização se enquadra nas visões dos já mencionados clássicos manuais de projeto em Design. Mesmo que eles não especifiquem o briefing como elemento discriminado no processo de projetação, o incluem, ainda que sem nomeá-lo, ao tratar de um dos principais temas abordados em todos os compêndios que configuram manuais: os métodos de projeto em design.
A ideia de um método de criação parametrizado, ordenado e esquematicamente organizado está enraizada na própria ideia do que vem a ser Design na contemporaneidade. É comum ouvir profissionais experientes resumirem categoricamente o próprio Design como um processo metodológico. Essa é uma noção que parece ignorar que outras áreas do conhecimento também podem, e muitas vezes o fazem, se organizar por meios de método para desenvolvimento de produtos, sejam eles de que natureza forem. De todo modo, desde a década de 1960 engendram-se métodos mais ou menos lineares, complexos ou passíveis de adequação durante sua utilização para projetos em Design, impulsionados por sua principal precursora, a Hochschule für Gestaltung Ulm (Bürdek, 2015).