Por um Conceito de Conceito
O termo conceito é amplamente utilizado por designers, professores e estudantes da área. É fácil encontrá-lo em salas de aula, bancas de projetos, concursos, feiras e eventos. Paradoxalmente, não há um consenso sobre o sentido cabal dessa palavra.
Conceito está para a cultura do Design como a redação está para a cultura da literatura, ou como a atenção às pessoas está para as diversas disciplinas da saúde. É parte intrínseca da atividade de projeto. É figura das mais centrais quando o assunto é criação de novos bens, sejam eles objetos de vestuário, peças gráficas, utilitários de cozinha, espaços de convivência e trabalho, produtos digitais e uma infinidade de variações compreendidas como inerentes à ação de designers. Mesmo em abordagens de caráter mais tecnicista, em que os olhares se voltam para as inúmeras listas de atividades sequenciais e quadros comparativos parametrizados, o termo conceito é empregado como um dos norteadores mais eficazes e necessários em projetos de Design.
Nas universidades, quando em formação, os estudantes têm a missão de definir o conceito daquilo que estão desenvolvendo nos exercícios projetuais durante as apresentações avaliativas. É corriqueiro o uso do termo por parte dos professores na comunicação das demandas aos estudantes, como uma das entregas a serem feitas, normalmente, no início da fase de desenvolvimento, precedida da definição do tema abordado e seguida pela geração de ideias e alternativas.
Já nos eventos, como feiras e exposições, o termo conceito ganha um senso de exibição preliminar. Carros e motos conceito, por exemplo, são alinhados em grandes salões estetizados de todas as formas possíveis e imagináveis, incluindo a presença de modelos profissionais sorridentes, posando sobre as plataformas dos estandes de cada marca, com a intenção de divulgar os passos propostos pelas montadoras para o futuro do transporte motorizado. Novos mecanismos, materiais alternativos, tecnologias de freio e injeção de combustível, além das linhas de estilo, cores e revestimentos, número de passageiros maior ou menor do que o convencional e tantas outras novidades, por vezes não tão novas, são demonstrados.
A polissemia do termo conceito não seria algo a se problematizar, necessariamente, já que o contexto se encarregaria de encaminhar o sentido a seu lugar de atribuição. No entanto, não é o que se percebe nas práxis da docência e do projeto nas mais diversas esferas. Ambas as acepções de conceito apresentadas, se considerarmos aquela utilizada em estúdios, escritórios e agências, congruente àquela presente na academia ao tratar de parte do processo de criação, se diferem claramente daquela empregada em salões e demais eventos de exposição. A demonstração de novidades tecnológicas e de estilo aplicadas a protótipos é o que designa conceito dentro da esfera dos eventos mencionados. Esse mesmo sentido circula, é claro, também nas esferas acadêmica e profissional de projetos em Design.
Na literatura que se debruça sobre os muitos métodos em Design, como no já citado Projeto de Produto (Baxter, 2015), um dos manuais de projeto mais completos utilizados em cursos da área, a acepção do termo conceito figura com um sentido próximo ao das feiras, mas ainda como uma espécie de embrião do que nelas é demonstrado ao público. Em um capítulo dedicado à temática, intitulado “Projeto Conceitual”, Baxter discorre sobre o objetivo da produção dos conceitos como o de produzir princípios de projeto para o novo produto a ser criado, superando aquilo que é oferecido pelos concorrentes. Para tanto, o autor propõe como fases a serem executadas a análise da tarefa que envolve o produto, das funções, do ciclo de vida, de valores, além da concepção de estilo, da semântica do produto, do simbolismo do produto e da emoção provocada pelo produto, o que gera diversos conceitos distintos ao longo do caminho. Finalmente, propõe a seleção do conceito mais adequado apoiando-se no trabalho de Stuart Pugh (1991), em que uma tabela paramétrica é criada com base em um dos conceitos de sucesso no mercado para valorar numericamente, de maneira comparativa, os conceitos gerados em função daquele de referência, pontuando cada um dos aspectos visitados na análise descrita.